quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apoteose de Mahler com a Osesp

Sintonia com o Divino

Na terça-feira à noite, dia 04, fomos assistir a apresentação da OSESP com a Oitava Sinfonia em Mi Bemol Maior de Gustav Mahler. Tudo já indicava que seria uma grande apresentação, afinal, além de todos os titulares da Orquestra, estariam também o Coro da Osesp, o Coro Infantil da Osesp, o Coro Juvenil da Osesp com vozes femininas, e o Coral Lírico Municipal. Só de participantes nos coros eram quase duzentas pessoas. Foram duas horas, sem intervalo, onde todos os presentes sentiram-se no céu. O regente Gennady Rozhdestvensky, nascido na Rússia e já bem velhinho, parecia um santo guiando o povo para o paraíso.

Eu sempre acho uma pena estas apresentações não acontecerem também em grandes praças para que o povo tenha acesso. Vi no Google que, em Agosto de 2006, Isaac Karabtchevsky regeu uma grande apresentação desta Oitava Sinfonia na praia de Capacabana, no Rio de Janeiro. Estes cariocas gostam de ser exemplo para o Brasil!

Passei o dia de ontem pensando em fazer um artigo para o blog, mas não tinha cabeça para tanto. Hoje, ao ler o artigo do Estadão convenci-me de que não precisaria escrever mais, bastava copiar o texto. Faço minhas as palavras deste articulista. Pena que na internet o jornal esqueceu de colocar o nome do autor. No jornal eu tenho certeza que foi registrado. Mas vale a pena ler o artigo e ouvir um pouco da música, apesar de não ser a gravação da Osesp.

Mahler e Osesp em sintonia com o divino
06outubro2011 - O Estado de S.Paulo

Alma, a jovem esposa de Mahler, teria dito, num momento de irritação, que "Gustav está sempre ao telefone com Deus." Na Oitava, acrescenta Michael Kennedy, "ele estava em linha direta com Ele". O contato imediato com o Divino levou-o a assumir expressamente a monumentalidade até então latente em sua música. O halo dos harmônicos do grand finale da primeira parte, "Veni Creator Spiritus", envolveu por quase 1 minuto a Sala São Paulo anteontem, no primeiro de três concertos da Osesp, oito solistas, três corais e regência de Gennady Rozhdestvensky.

Um encanto grandiloquente que com frequência resvala na banalidade. A genialidade de Mahler está em assumi-los na melhor tradição germânica da Nona de Beethoven e do Ring de Wagner. A monumentalidade é "fachada decorativa" (Dahlhaus); "nela a vastíssima grandeza" conduz "à superficialidade" (Alexander Rehding). Difícil evitar pitadas populistas.

Pois é dessa banalidade que Mahler consegue fugir. A sua é uma monumentalidade a serviço da música - e não o contrário, como habitualmente acontece. Há momentos em que o coral canta acompanhado apenas por um violino, ou um solista só por um violoncelo. Neste sentido, a sobriedade do célebre maestro russo de 80 anos serviu à música - e não à grandiosidade. Ele não tem em sua discografia a dita "Sinfonia dos Mil", mas isso não tem a menor importância.

Gestos comedidos, manteve os pés no mesmo chão dos músicos, e não no pódio. Manteve comando absoluto daquela vasta engrenagem de centenas de participantes; e uma energia certeira quando, após o grande finale do "Veni Creatus Spiritus", fez um intervalo mais longo, de modo a preparar os sutis 10 minutos instrumentais que abrem a ode ao "eterno feminino", um imenso afresco de 60 minutos sobre a cena final do Fausto de Goethe.

A ruptura entre as duas partes é profunda. A primeira é construída como um enorme movimento com o coral como solista, na segunda retornamos ao clima das sinfonias anteriores do compositor. As intervenções dos sete solistas soam praticamente como "lieder" sucessivos (Lisa Milne e o coral só entram no finalzinho) desembocando num grand finale de tintura zen.

Entre os solistas, destacou-se o tenor Jon Villars, brilhante nos agudos e sempre acima de um tecido orquestral às vezes ingrato para a voz solista. Lisa Milne, o barítono Douglas Hahn e o baixo Nikolai Didenko, os demais estrangeiros, também foram bem, assim como as brasileiras Manuela Freua, Silvia Tessuto e Edineia de Oliveira (sobretudo Edineia).

Aplausos para Naomi Munakata e Mário Zaccaro, que prepararam em alto nível os corais da Osesp e o Coral Lírico Municipal. E para o ótimo desempenho da Osesp. Coisa boa: parece que a orquestra cresce na medida em que são maiores os desafios.

Mahler's 8th symphony Finale

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