sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O sonho não acabou

Elizete Cardoso e amigos

Um disco inesquecível, que só quem conhece ou assistiu ao show é capaz de imaginar. Este era o Brasil verde e brilhante de antes do AI-5 fechar de vez a ditadura militar brasileira. Mas a vida continuou, o Brasil renasceu e já brilha para o mundo.

Elizeth Cardoso – Zimbo Trio – Jacob do Bandolim – Época de Ouro (Ao vivo no Teatro João Caetano)

Estes albums (3 LPs ou 2 CDs), gravados ao vivo, que reproduzem o mágico e histórico show com Elizeth Cardoso – Zimbo Trio – Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro, realizado no Teatro João Caetano (Rio de Janeiro), superlotado com mais de 1.500 expectadores, numa noite de segunda-feira de intensa chuva, 19 de Fevereiro de 1968, um dia pouco adequado para um Show deste porte.

Era um show beneficente visando arrecadar fundos para o Museu da Imagem e do Som. Em pleno verão carioca em mais de 2 horas de Show (iniciou às 21:30 horas, se estendendo até às 23:50 horas), num dos anos mais turbulentos da história contemporânea Brasileira (e mundial).

Este documento foi lançado inicialmente em 1968 como apenas 2 albums long plays pelo selo do Governo do Estado do Rio de Janeiro – “Museu da Imagem e do Som” (MIS). Posteriormente, em 1977, foi lançado, também pelo “Museu da Imagem e do Som” (MIS) o Volume 3, denominado “Fragmentos Inéditos”, com algumas sobras de gravação. Em CDs foi lançado pela Biscoito Fino na caixa da Elizeth Cardoso “Faxineira das Canções” em 2 CDs.

Este foi um dos shows mais memoráveis da Música Brasileira no Rio de Janeiro. Reuniu no mesmo palco, tocando em conjunto, várias correntes da Música Popular Brasileira. Havia de um lado o Zimbo Trio, um grupo de Bossa Jazz. Fortemente influenciado pelo Jazz, o Zimbo, se utilizava de harmonias sofisticadas oriundas do be-bop e na parte melódica tinha ênfase na improvisação jazzística. Este grupo tinha como formação Amilton Godoy (Piano acústico), Luiz Chaves (Baixo acústico) e Rubinho Barsotti (Bateria).

Já Jacob do Bandolim, acompanhado pelo Conjunto Época de Ouro, executava a música tradicional brasileira, como Sambas, Choros, Maxixes, Valsas, Samba-Canções, Polcas, Baiões, Canções Brasileiras e outros gêneros do início de nossa música. Este grupo de exímios instrumentistas tinha em sua música um enfoque altamente melódico, com linhas melódicas originadas das escalas maiores e menores tradicionais, dos arpejos e cromatizações e embelezamentos sobre a nota alvo. Sua harmonia era basicamente triádica (exceto nos acordes dominantes), com algumas raras incursões em acordes Tônicos com 7ª Maior (Major7) e com 6ª (add 6). O que também caracterizava a música por estes executada era a marcante linha de baixos, executada pelo Violão 7 Cordas, magistralmente empunhado pelo Dino. A formação do Grupo Época de Ouro era Jacob do Bandolim (Bandolim), Horondino José da Silva (Dino – Violão 7 Cordas), Carlos Leite (Carlinhos - Violão nylon), Jonas da Silva (cavaquinho) e Gilberto d'Ávila (pandeiro). OBS: César Faria (Violão nylon), pai do Paulinho da Viola e integrante do Época de Ouro, consta nos créditos dos discos como participante do show, o que na realidade não ocorreu. O César estava viajando e não pode participar.

Mas Elizeth agiu como uma Divina argamassa que amalgamou todas as diferenças e fez tudo se resumir em apenas Música! A Verdadeira Música Brasileira!

Tecnicamente a gravação não é das melhores. No Brasil, os equipamentos de gravação eram obsoletos, os técnicos sem muita formação / informação do assunto, além das condições sempre adversas dos Teatros para realização de um feito tão grandioso. Até as fitas de rolo utilizadas para a gravação do show, gratuitamente cedidas pela Embaixada Norte Americana no Rio de Janeiro, eram já utilizadas e continham discursos de políticos, que foram devidamente apagados. O gravador rodava a uma velocidade de 71/2 IPS, utilizada apenas em situações amadoras. Apesar de todas estas limitações técnicas, o brilho do evento não conseguiu ser maculado.

O espetáculo é permeado pela emoção da primeira até a última canção. Sem que houvesse um ensaio geral, tudo acontece de forma improvisada, bem espontânea e intimista, levando a platéia ao delírio e fazendo-a ativa participante deste evento inesquecível.


Nenhum comentário:

Postar um comentário