segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Land Rover e o Ipê Amarelo

Land Rover faz mal à saúde

Neste domingo, quando fui comprar pão, peguei o carro e fui dirigindo devagarinho porque, como todos os dias, eu tinha que atravessar a Rua Natingui. E como o noticiário está falando do casal que atropelou e matou o jovem na Rua Natingui, eu também passei a ter medo do Land Rover.

Este carro faz mal à saúde física e mental. Lembram que no “mensalão” tinha um jovem assessor que ganhou um Land Rover e não soube explicar na CPI? O Land Rover é um “objeto de desejo” para aqueles que querem se sentir poderosos... Ainda mais se for blindado! Ao dirigir um Land Rover, as pessoas devem se sentir como alguns políticos, militares, juízes e jornalistas importantes, devem se sentir acima do cidadão comum, acima dos pobres. E como nossas leis não protegem os pobres e os comuns, eu que sou comum e pobre, tenho medo de Land Rover.

Mas, como há males que vem para o bem, quando eu atravessei a Rua Natingui e peguei a Rua Fradique Coutinho, como andava devagar, vi algo que ainda não tinha visto em São Paulo: Vi um pequeno pé de Ipê Amarelo e florido! Parei olhando para todos os lados, para ver se não vinha um Land Rover, e fui olhar as flores, para ver se elas eram iguais as do Ipê Rosa. E eram... Finalmente eu tinha encontrado um pé de Ipê Amarelo, como Joel e tantos outros escreviam para mim. Então eles existem. A gente tende a ser assim, só acredita vendo...

Voltei para casa emocionado. Além de não ter sido atropelado pelo Land Rover, ainda tinha descoberto um pé de Ipê Amarelo com flores. Agora, terei flores de Jasmim, flores de Ipê Amarelo e muitas outras flores. Como estava chovendo, deixamos para fazer nossa caminhada mais tarde, sem ir para o Parque Vila Lobos.

Decidimos caminhar no próprio bairro e, ao passarmos em frente ao Colégio Vera Cruz, vimos que as flores dos pés de Ipê Rosa estavam caindo, como lágrimas… E nos lembramos que o rapaz que foi atropelado pelo Land Rover, estudou no Vera, como nós chamamos. Ele era uma turma mais nova que nossa filha. Ele tinha apenas 24 anos... Já tinha se formado, morado em Londres e estava dando aula na FGV – Fundação Getúlio Vargas, onde eu estudei há muito tempo atrás. E morava no bairro. Ele foi atropelado, poderia ser qualquer um de nós. Já pensou? Que perigo que são estes Land Rovers...

Continuamos a caminhada e fomos passando por pés de Ipês chorando, isto é, com flores caindo. E nossa caminhada, que normalmente é muito alegre, desta vez foi uma caminhada triste. Hoje cedo, quando eu vinha para o Centro, fiquei olhando o Cemitério da Dr. Arnaldo cheio de pés de Ipês Rosa em flores, e voltei a lembrar-me do rapaz atropelado pelo Land Rover. E voltei a ficar com medo.

Mas a Rua da Consolação, apesar de ser uma rua para carros, também tem árvores no canteiro central. E os pés de Ipê Rosa já não tem mais flores. Mas eu contei QUATRO PÉS DE IPÊ AMARELO CHEIO DE FLORES! Fiquei pensando que a vida da gente é também como a vida das flores, enquanto umas vão, outras chegam. E por mais que a gente fique triste quando alguém querido parte, acabamos desenvolvendo novas alegrias com novas pessoas. E com novas flores.


Talvez toda vez que eu olhar para uma flor de Ipê Amarelo eu me lembre do rapaz atropelado pelo Land Rover. É como a música, ela sempre nos faz lembrar alguma coisa. E como a Rua da Consolação estava acabando, eu liguei o rádio para ouvir o noticiário. Mas, em vez de ouvir a voz de Boechat, eu ouvi o trompete de Louis Armstrong: tá, tará, tatá, tará... tará, tatá, tará... Era uma música francesa, com letra em inglês e cantada por um negão maravilhoso! Era “La vie em rose”.


7 comentários:

  1. Joel, se voce ler o texto de hoje, aproveite para enviar o manual para linkar música. Já tentei várias vezes mas não dá certo. Coisa de velho.

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  2. Gilmar, o seu blog já está no meu "favoritos".
    Segue abaixo a citação de Otávio Mangabeira:
    “mostre-me um absurdo: na Bahia há precedentes“.
    Abs
    Vitor

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  3. Parabéns pelo seu blog. Para linkar a música, quando estiver em editar postagem você verá um símbolo escrito "Link" na barra logo acima. Clique aí e, quando abrir a janela, copie o endereço do link em "Este link deve direcionar para que URL?". O ideal é copiar o mesmo link também em "Texto a ser exibido:", mas este último apenas especifica o texto que vai aparecer na postagem, e não o link para onde vai. Deve dar certo, pois faço isso sempre.

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  4. O problema não é o Land Rover, Gilmar... é o dono do Land Rover. O Land Rover, coitado, é um ótimo carro pra quem gosta de fazer trilha. Talvez seja o melhor. Eu não chego a tanto (nem a fazer trilha, nem a ter um Land Rover), mas tenho um 4x4 bem bonzinho, que eu levo a descaminhos de terra, lama e poeira. Vale a pena. Fiz algumas viagens memoráveis. Conheci lugarezinhos perdidos, no cerrado/na serra/na restinga, cantos onde dificilmente eu chegaria com um carro menos robusto.

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  5. Legal! Vídeo no blog! E ficou direitinho no leiaute! Ninguém segura mais o Gilmar! ;)

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  6. O Land Rover pode fazer mal à saúde...

    mas os escritos do Gilmar fazem muito bem!

    Rapaz, você está um poeta! Texto maravilhoso.

    Uma costura na crítica e na poesia, na beleza da vida e na hipocrisia dos homens. E com esse fecho genial do Armstrong.

    Não à toa já são cinco mil visitantes...

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  7. Camarada Gilmar, bom texto! Não é à toa que você ainda é referência pra uns sindicalistas novos, mesmo não tendo militado ao seu lado.

    A música ao final me lembrou da trilha sonora do filme de animação MARY & MAX, UMA AMIZADE DIFERENTE. O filme é de 2009 e fala da amizade de uma menina de Melbourne e de um senhor em Nova Iorque. O filme é maravilhoso. Assista se não viu ainda.

    Abraços, William

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