terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Esquina do Mundo

Os caminhos passam pela Espanha

Antigamente, “todos os caminhos levavam à Roma”, um dos impérios mais importantes da nossa história. Depois tivemos “o império onde o sol nunca se põe”, representando o poderio do Império Britânico. Tivemos também o império moderno com a capital em Nova York, não em Washington. O Século XX foi o século dos Estados Unidos.

Mas, quem descobriu a América não foram nem os ingleses nem os americanos, foram os espanhóis. E os portugueses descobriram o caminho para as Índias e dobraram o Cabo da Boa Esperança! E por que se apequenaram? Por que logo em seguida perderam tudo para a Inglaterra?

Quais são os mistérios desta Península Ibérica, tão importante na História da Humanidade? Sempre quis entender estas questões. Comprei vários livros sobre a História da Espanha e confesso que ainda não decodifiquei este enigma.

Durante toda minha militância sindical e com as várias organizações de esquerda, toda vez que a disputa se acirrava eu ponderava que nossa esquerda era tão autofágica quanto a Guerra Civil Espanhola, onde comunistas matavam anarquistas, enquanto os fascistas cresciam, com o apoio de Hitler e a omissão do Ocidente, e ganhavam a guerra civil, derrotando a República Democrática e implantando a Ditadura Franquista que precedeu à Segunda Guerra Mundial.

O curioso é que quando estudamos História Antiga, ficamos sabendo que os povos do Mediterrâneo consideravam o fim-do-mundo exatamente na Península Ibérica, que hoje abrange Portugal e Espanha. O mundo conhecido e seguro era da Grécia até a Espanha, no Mar Mediterrâneo, depois disto era o mar revolto, o imponderável.

Quando os muçulmanos partiram da África para conquistar a Europa, eles primeiro conquistaram a Península Ibérica. Quando os Visigodos resolveram buscar novas terras, eles lutaram até a Espanha, foram até a África. Mas ficaram mesmo foi na França e na Espanha. Neste vai-e-vém das guerras, a Esquina do Mundo, na verdade, sempre foi a Península Ibérica.

Quando os músicos e compositores da Europa quiseram descobrir novas formas de compor e de alegrar as pessoas, foram beber na cultura ibérica para alegrar os salões musicais desde a Rússia, Itália, Alemanha e França. A cultura espanhola, mesmo quando eles escreviam pouco, era reproduzida por outros escritores e compositores.

E para nós, da América Latina, que ficamos tentando ser modernos copiando a França, a Inglaterra ou os Estados Unidos, por terem derrotados a Espanha e Portugal, nunca seremos nós mesmos enquanto não formos capazes de entender nossas origens hispânicas, católicas, muçulmanas, judaicas, negras, indígenas e latinas.

Neste fim de semana, depois de assistir a um filme maluco, “A Árvore da Vida”, que dura mais de duas horas, fomos jantar com os amigos para tentar entender alguma coisa do que vimos. Conversamos sobre a “origem da vida”, as religiões católica e protestante, a rigidez da disciplina militar americana e comparamos com a nossa história, e saímos com mais dúvidas do que esclarecimentos. E ao chegar em casa, minha filha presenteou-me com mais um livro sobre a Espanha. Exatamente sobre a guerra civil espanhola e a segunda guerra mundial. Um bom livro de Antony Beevor.

Meditando sobre o filme, o jantar e o livro, cheguei à conclusão que minha angústia com a história da América Latina e da Península Ibérica tem a ver com o fato de que toda a história da humanidade passa pela Península Ibérica, como passou pelo Oriente Médio e a Índia. Ali tudo é plural, nada é singular. Não existe um povo, uma história, uma música ou uma cultura. Nossa história passa por ali. Esta nossa diversidade é hispânica!

E nosso futuro pode passar por entender o significado de tudo isto para nossa vida passada e presente. Eu, que estava pensando em voltar a estudar a Grécia Antiga, convenci-me a voltar a estudar a Espanha, e Portugal como parte desta Espanha que é a Península Ibérica. Quem sabe por aí possamos encontrar nosso futuro?



Concierto de Aranjuez, composição de Joaquin Dodrigo

Um comentário:

  1. Muito legal. Sugiro que vc ouça "Aranjuez" na interpretação do John Williams, que creio ser insuperável. Abç

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