terça-feira, 19 de julho de 2011

Sinais dos Tempos: Murdoch, Iraque e...

Na guerra, a primeira vítima é a verdade

Países que foram referências importantes agora estão em crise. A Inglaterra mostra suas veias abertas com espionagens, manipulações de informações, policiais corruptos e imprensa sendo denunciada. Os Estados Unidos invadiram o Iraque e não sabem como sair de lá, alongando uma crise moral que virou também crise econômica. Os demais países da Europa passam um período de agonia por terem preferido apoiar os bancos e não se precaverem com suas dívidas aos próprios bancos.

Nas disputas econômicas internacionais, no jogo político e na disputa de mercado também a verdade está sempre correndo risco. Afinal, o que é a verdade? Há a verdade de quem ganhou, a verdade de quem perdeu, e a verdade de quem ver de fora.
A crise do início do Século XX levou à primeira guerra mundial e depois à segunda. Não sabemos como os conflitos começam nem como terminam. Só sabemos depois que eles acabam...

O Brasil faz parte deste mundo. Aqui a crise é mais moral do que econômica. É preciso fazer uma revisão geral nas leis que regulamentam a vida política, o judiciário, a imprensa, o sistema de segurança e as políticas públicas. Vivemos uma crise de hegemonia. Não só no Brasil, mas em todo mundo. São os sinais dos tempos...

Vejam o bom texto sobre a Crise da Imprensa Britânica, que é também uma crise de governo. O sistema de governo britânico está ficando tão desmoralizado quanto ficaram os Estados Unidos na época de Bush.

A queda rápida da guilhotina

19 de julho de 2011 - Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo

O escândalo Murdoch está se revelando um caso excepcional. Mal nasceu e já tem uma série de ramificações. Avança a uma velocidade avassaladora, com revelações em cascata e demissões de personagens intocáveis. Trata-se de um escândalo colossal. No início, dizia respeito à imprensa e aos estranhos jornalistas do império Murdoch, de preferência os que atuam naquela dita imprensa marrom, do tipo do News of the World, que foi fechado rapidamente.
Imediatamente, outras áreas foram atingidas pela onda de choque: em primeiro lugar, os meios políticos nos seus mais altos níveis, a começar pelo primeiro-ministro David Cameron, que estava ligado a Murdoch. Essas ligações entre Murdoch e Cameron evidentemente caíram do céu para o novo líder do opositor Partido Trabalhista, Ed Miliband, que até então tinha dificuldade para se impor. Por fim, além do círculo político, também foi atingida a polícia, o coração da Scotland Yard.

O fato mais surpreendente e significativo é que as pessoas atingidas pela onda nauseabunda do escândalo não opõem uma longa resistência. Elas caem como pinos de boliche. Comumente, nestes casos, os suspeitos defendem-se com unhas e dentes, resistem semanas, meses ou anos, antes de afundar. No caso Murdoch, as sanções caem como uma lâmina sobre a nuca de um guilhotinado e no mesmo instante.
É o caso da ex-diretora do News International, a implacável, exuberante e temida Rebekah Brooks. Na sexta-feira, ela teve de se demitir do cargo, sob suspeita de "corrupção". No domingo, foi presa e logo depois liberada.

O mais espantoso é que o chefe da Scotland Yard, Sir Paul Stephenson, anunciou sua demissão no domingo, chorando. Seu pecado foi ter como assessor na área de comunicações um sujeito chamado Neil Wallis, ex-redator-chefe assistente do News of the World. Ao mesmo tempo, fomos informados de que o chefe da Scotland Yard, teve a felicidade, quando convalescente, de se hospedar gratuitamente com a mulher num dos spas mais luxuosos do país, cuja promoção era uma das tarefas do mesmo Wallis. A rapidez dos que se lançaram à caça nos leva a pensar que, na realidade, o dossiê montado contra o tentacular Murdoch é pesado e praticamente indefensável.

Há uma terceira característica que confere ao escândalo Murdoch um estilo ao mesmo tempo universal e simbólico: estamos diante de uma família enorme e terrível, uma família que está certamente unida, por um objetivo comum (dinheiro, conquista do poder, dominação etc...), e também, dividida entre os diferentes ramos do "clã", menos dedicados à ternura e ao amor da família do que a ódios mortais suscitados pela ganância e ciúme.

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